No início somos pequenos, baixos, a tocar o chão, e a ver de muito longe o céu. No início não temos sonhos. Somos apenas o hoje sem sabermos onde estamos ou para onde vamos. E ainda assim sorrimos para a imensidão do que vem de cima, para a largura e o comprimento desmesurados do mundo. O nosso primeiro lugar é a casa, as quatro paredes que embrulham um espaço que dentro de momentos já é pequeno demais. Assim crescemos a pensar que o "aqui" é já um cubículo e que o resto que não conhecemos é um labirinto para um gigante. Um dia mais tarde, mas tão pouco depois, nascem os sonhos e o mundo torna-se mais pequeno, torna-se numa viagem.

E assim descobrimos que o mundo tem o tamanho dos nossos sonhos e que ele é a nossa nova casa.



Atlas, Ouarzazate e Merzouga


De Marraquexe para Merzouga encontramos o Cordilheira do Atlas (a maior cadeia montanhosa do Norte de África). Depois seguimos pelo Vale das Rosas famoso pelo cultivo de rosas e pelo Vale dos Dades. Visitamos ainda o Kasbah Ait Benhaddou antes de chegarmos a Ouarzazate e depois de comermos tajine - um prato típico feito num recipiente de barro com batatas, carne e beringela entre outras coisas. Ao nosso lado um casal senta-se, puxa do pão que trouxe dentro de um saco e com a mão direita vai aconcehgando o pão à comida e comendo. Na cultura de Marrocos, a mão direita é utilizada para a alimentação e a mão esquerda para o cuidado da higiene.
Ouarzazate é conhecido pelos estúdios de Hollywood e a partir daqui a ideia de deserto está bem mais presente. A próxima paragem é Rissani onde mudamos de transporte para seguirmos para um albergue em Merzouga. Assim que chegamos ao último destino subimos para cima de um dromedário e uma hora e meia depois estamos na nossa tenda no deserto.
Foi uma longa viagem até chegarmos às Dunas de Erg Chebbi no Sahara e finalmente há uma paz incrível. Conseguimos ouvir o silêncio no deserto, algumas vezes interrompido pelo nosso simpático guia que nos vai explicando que estamos a cerca de 40 quilómetros da Argélia e nos conta as suas histórias. A língua berbere é muito utilizada pelos habitantes. Os guias são poliglotas e é fácil percebermos tudo o que dizem. Depressa se faz noite mas não há motivos para preocupações. O nosso guia diz-nos "Conheço o deserto como as palmas da minha mão". Apreciamos aquele lugar silencioso e sem medo, embora o nosso guia nos diga que no deserto há “ratones”…

Não é fácil dormir numa tenda no deserto. Não é confortável e é um tanto ou quanto estranho quando alguém nos responde à pergunta "Onde fica a casa de banho?" com "A casa de banho é o deserto todo!".

Depois de uma noite um pouco mal dormida é tempo de subirmos às dunas para podermos apreciar o nascer do sol. Acordámos um bocadinho tarde mas ainda chegámos a tempo. E assim nos damos conta de que Marrocos não é a confusão de Casablanca mas sim todo um sossego enorme e uma simplicidade extrema. Durante sete dias viajámos sempre com estranhos, com alguma insegurança e espiríto de aventura. Toda esta ausência de segurança e do comodismo trouxe-nos às dunas de Erg-Chebbi e mostrou-nos como realmente somos quando somos só nós sem mais nada que nos proteja. Primeiro somos desconfiados e suspeitamos dos outros. Passado algum tempo esquecemos tudo isso, passamos a confiar e tornamo-nos mais humanos. Acho que é esta a mensagem. Foi isto que fomos buscar a um lugar tão diferente mas que até está perto de nós (em 45 minutos de avião estamos em Marrocos): um pouco de humanismo.

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