No início somos pequenos, baixos, a tocar o chão, e a ver de muito longe o céu. No início não temos sonhos. Somos apenas o hoje sem sabermos onde estamos ou para onde vamos. E ainda assim sorrimos para a imensidão do que vem de cima, para a largura e o comprimento desmesurados do mundo. O nosso primeiro lugar é a casa, as quatro paredes que embrulham um espaço que dentro de momentos já é pequeno demais. Assim crescemos a pensar que o "aqui" é já um cubículo e que o resto que não conhecemos é um labirinto para um gigante. Um dia mais tarde, mas tão pouco depois, nascem os sonhos e o mundo torna-se mais pequeno, torna-se numa viagem.

E assim descobrimos que o mundo tem o tamanho dos nossos sonhos e que ele é a nossa nova casa.



Porto

"Saiu pela noite,
Pelas ruas do Porto,
Procurando os seus olhos
Num copo já morto.
Perdeu-se na vida
Encontrou-a na Foz,
Entre o Molhe e a Avenida
Há tanta gente a sós."
Eu e tu somos iguais, Pedro Abrunhosa

Não é fácil descrever o Porto. Há quem o ache sombrio e triste, cinzento como o céu num dia de chuva. Não sei porquê mas tenho tendência a gostar das coisas melancólicas de onde possa brotar uma certa tristeza. E assim aconteceu com o Porto, o meu lindo Porto.
Não importa qual o emprego que tenhamos, mas se os nossos dias começam com uma viagem de autocarro a partir de Matosinhos, passando por toda a zona ribeirinha do Porto, e a terminar no Mercado Ferreira Borges, então somos felizes. De manhã o percurso é lindo e à noite há um conjunto de luzes que nos dão um cenário mágico. Acho que vivi grande parte do tempo que estive no Porto à custa deste pequeno percurso com cerca de 50 minutos. E ainda para mais tinha o privilégio de poder passar a minha hora de almoço na Ribeira, onde se cruzam estrangeiros, onde estão alinhadas as casas coloridas que representam a cidade, onde há sempre um barco à espera para uma viagem no Douro e onde nos dá vontade de atravessar a ponte D.Luis e ir até Gaia.
Quando cheguei, no princípio de 6 meses no Porto, atraquei a vida a Leça da Palmeira, onde comi a minha primeira e única sopa de sarrabulho. Depois atravessei a antiga ponte e fui dar com Matosinhos, onde também quis viver por uns tempos. Este tempo no Porto foi um pouco solitário mas, ao mesmo tempo, foi uma dádiva para colocar a cabeça em ordem sem depender de ninguém. O Porto marca quem por lá passa. As pessoas são abertas. As ruas são estreitas a fazerem-nos lembrar a nossa terra natal quando somos do centro do País. São Bento mostra-nos o rebuliço. O metro enche-se de azul em dias de futebol. O interior do palácio da Bolsa dá um pouco de misticismo a uma cidade que não aparenta ser iluminada. E, apesar das muitas estradas, becos, ruas, caminhos e ruelas nos confundirem a orientação no espaço, acabamos sempre por encontrar um bocadinho de nós neste Porto, meu Lindo Porto. Acabamos sempre por nos encontrar.

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