No início somos pequenos, baixos, a tocar o chão, e a ver de muito longe o céu. No início não temos sonhos. Somos apenas o hoje sem sabermos onde estamos ou para onde vamos. E ainda assim sorrimos para a imensidão do que vem de cima, para a largura e o comprimento desmesurados do mundo. O nosso primeiro lugar é a casa, as quatro paredes que embrulham um espaço que dentro de momentos já é pequeno demais. Assim crescemos a pensar que o "aqui" é já um cubículo e que o resto que não conhecemos é um labirinto para um gigante. Um dia mais tarde, mas tão pouco depois, nascem os sonhos e o mundo torna-se mais pequeno, torna-se numa viagem.

E assim descobrimos que o mundo tem o tamanho dos nossos sonhos e que ele é a nossa nova casa.



“Na véspera de não partir nunca
Nem que fazer planos em papel,
Com acompanhamento involuntário de esquecimentos,
Para o partir ainda livre do dia seguinte.
Não há que fazer nada
Na véspera de não partir nunca.
Grande sossego de já não haver sequer de que ter sossego!
Grande tranqüilidade a que nem sabe encolher ombros
Por isto tudo, ter pensado o tudo É
o ter chegado deliberadamente a nada.
Grande alegria de não ter precisão de ser alegre,
Como uma oportunidade virada do avesso.
Há quantas vezes vivo A
vida vegetativa do pensamento!
Todos os dias sine linea
Sossego, sim, sossego...
Grande tranqüilidade...
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas!
Que prazer olhar para as malas fítando como para nada!
Dormita, alma, dormita!
Aproveita, dormita! Dormita!
É pouco o tempo que tens! Dormita!
É a véspera de não partir nunca!”
Álvaro Campos

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